segunda-feira, 2 de março de 2015

O que viver nesta Quaresma?

O tempo da Quaresma é o convite a voltarmos os olhos para a Páscoa. Mas como viver bem este tempo?

Abre-se a porta da misericórdia! O Pai das Misericórdias enviou Seu Filho amado ao mundo e derramou sobre a humanidade a unção do Espírito Santo, para a festa do perdão, arte das artes, que tem na Trindade Santa sua fonte e realização, em benefício da humanidade. Abre-se a porta da Quaresma. Proclamamos, nesta semana, a necessidade da Penitência, com a Quarta-feira de Cinzas, pois, pelo doloroso mistério do pecado, pesa um sinal de condenação sobre a humanidade. Graças ao amor misericordioso de Deus não há pecado, por maior que seja, que não possa ser perdoado, nem pecador que seja posto de lado. Todas as pessoas que se arrependerem serão recebidas por Jesus Cristo com perdão e imenso amor. Diante de tamanha bondade, cabe-nos responder com a sinceridade da vivência quaresmal. O pregão bíblico da penitência, com o gesto da imposição das cinzas, vivido pela Igreja, quer ser o convite a que todos estejam dispostos a morrer para o homem velho.
O que viver nesta Quaresma-
A Igreja aprendeu e ensinou, no correr dos séculos, a importância do tempo, como oportunidade da graça de Deus, por meio do que chamamos Ano Litúrgico, com o qual percorremos o ciclo dos mistérios de Cristo, colhendo todos os presentes que são oferecidos. O tempo da Quaresma é o convite a voltarmos os olhos para a Páscoa, dedicando as próximas semanas à revisão de vida, prática da penitência, do sacramento da reconciliação, da leitura orante da Palavra de Deus, da participação na Eucaristia e no exercício da caridade.
A cada ano, a Igreja oferece temas e propostas de vida nova a todos os cristãos. O Papa Francisco desejou, neste ano de 2015, convidar-nos a refletir e mudar de atitude, na superação de um dos desafios mais urgentes, a globalização da indiferença.
Diz o Papa: “Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar”. Depois de indicar passos a serem dados pela Igreja, pelas paróquias, comunidades e por todos os cristãos, considerados pessoalmente, assim convidou: “Para superar a indiferença e as nossas pretensões de onipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta encíclica Deus caritas est, 31).
Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador, mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro. Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma, desejo rezar convosco a Cristo: ‘Fazei o nosso coração semelhante ao vosso’ (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus).Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença”.
Também no Brasil acontece um intenso esforço de mudança de vida, com a Campanha da Fraternidade, realizada anualmente na Quaresma, desde 1964, com a qual deseja oferecer nossa contribuição à sociedade, para a construção de um mundo melhor. Em 2015, nossa Campanha é sobre “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, com o lema “Eu vim para servir” (Cf. Mc 10, 45). O bonito cartaz da Campanha retrata o Papa Francisco lavando os pés de um fiel na Quinta-feira Santa de 2014. A Igreja atualiza o gesto de Jesus Cristo ao lavar os pés de seus discípulos. O lava-pés é expressão de amor capaz de levar a pessoa a entregar sua vida pelo outro.
A Igreja católica participa das alegrias e tristezas do povo brasileiro, e quer dar a sua contribuição, para que nosso povo seja mais disponível ao serviço das pessoas umas às outras. Queremos manter uma atitude de serviço, diálogo e cooperação. Queremos atuar em favor de tudo o que eleva a dignidade humana. Nossa colaboração quer ser ainda uma resposta ao convite do Papa para maior atenção aos pobres e sofredores, indo às periferias geográficas e existenciais, uma Igreja em saída, como diz o Papa Francisco.
Alguns temas serão tratados com intensidade e vão se transformar em prática dos cristãos, como fruto da Campanha da Fraternidade: a proteção dos direitos fundamentais das pessoas, o bem comum, a justiça social e o serviço da Igreja à sociedade. Desejamos procurar continuamente o que Deus quer de nós, discernindo nossas ações a partir do que existe em nossas comunidades, atuando por meio das pastorais sociais, dialogar com todas as forças da sociedade em vista do bem comum, introduzir cada vez mais o tema da paz e da superação da violência em nossas orações e nosso comportamento, acompanhar pessoas e famílias em situação de conflito, participar de forma consciente e construtiva no caminho do país para a reforma política.
Os cristãos não desejam privilégios, mas têm o direito de participar da vida da sociedade. Sabemos que existem posições contrárias à religião, numa sociedade que pretende cancelar as referências à transcendência e o reforço do individualismo. Há assuntos graves que pedem a participação de todas as forças da sociedade, como a educação, a saúde e a paz social. A Igreja tem uma palavra a dizer sobre esses temas e propõe modos de vida que não excluam pessoas e grupos da sociedade. Acolhendo o convite do Papa Francisco, em sua mensagem quaresmal, os católicos não se deixarão tomar pela globalização da indiferença. Saberão chorar com os que choram e rir com aqueles que riem (Cf. Texto-base da Campanha da Fraternidade 2015).
Começa uma “Campanha”, esforço intenso, durante a Quaresma, unindo forças humanas e corações iluminados pela fé. Uma Campanha “da Fraternidade”, sonhando alto e fazendo a nossa parte para que homens e mulheres de nosso tempo sejam mais fraternos. É uma Campanha da Igreja, que pretende ser “Campanha de Opinião Publica”, contribuindo para a elevação do nível de vida do povo brasileiro. O caminho está em Cristo, que veio “para servir”.
Dom Alberto Taveira Corrêa

domingo, 1 de março de 2015

A espiritualidade cristã na família: um casamento que dá certo

Semana Nacional da Família
“A espiritualidade cristã na família: um casamento que dá certo” é o tema da Semana Nacional da Família, que acontece de 10 a 16 de agosto deste ano.
Para o presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família, dom João Carlos Petrini, o tema visa ajudar as famílias na vivência da espiritualidade. De acordo com o bispo, “são gestos de espiritualidade que podem fazer a grande diferença na convivência dos esposos, no crescimento dos filhos na fé, na renovação da alegria pelo amor que se renova, no dia a dia, pelo dom da graça de Deus”.
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A Igreja tem a família como um “Patrimônio da Humanidade”, um valor inegociável. Ela é a Igreja doméstica, um reduto dos cristãos no incrédulo mundo romano. Ela é a célula mater da sociedade. Jesus quis nascer na Família Sagrada de José e Maria.
A Igreja não é outra coisa senão a “família de Deus” (Cat. n.1655). É no seio dela que os pais são para os filhos, pela palavra e pelo exemplo, os primeiros mestres da fé. O lar é a primeira escola de vida cristã. É nela que os filhos aprendem a viver as virtudes e a vencer os vícios.
Como a Igreja sempre ensinou, “família que reza unida permanece unida”. Para vencer todos os males que hoje ameaçam e destroem a família, é preciso que os pais rezem com seus filhos, sobretudo o santo terço, façam com eles a meditação da Palavra de Deus, deem a eles os princípios básicos da catequese: as orações fundamentais, as verdades do Credo e os mandamentos. É no colo do pai e da mãe que cada filho deve conhecer e amar a Deus e a Igreja. É no lar que se providencia o batismo, a crisma, a Eucaristia e o matrimônio ou a ordem para os filhos.
A Igreja ensina que os pais devem ser os primeiros catequistas dos filhos; a Igreja completará essa formação.
Sem uma família cristã de verdade, onde pai e mãe dão aos filhos o bom exemplo da fé, os levem à Missa e a Igreja, a família não se mantém de pé diante de tantas ameaças que hoje a atingem: casamentos de pessoas do mesmo sexo, divórcios, traições, infidelidades, televisão imoral, costumes liberais etc.
É fundamental que todo o Brasil católico se mobilize em torno dessa Semana, pois, como disse o Santo Papa João Paulo II, a família nunca esteve tão ameaçada como hoje. João Paulo dizia que o futuro da Igreja passa pela família. O Congresso Teológico Pastoral, que se realizou no Rio de Janeiro, em 1997, onde esteve o Papa João Paulo II, publicou a “Carta do Rio de Janeiro”. Entre outras coisas foi dito que:
1 – “A família está sob a mira de ataque em muitas nações. Uma ideologia anti-família tem sido promovida por organizações e indivíduos que, muitas vezes, não obedecem princípios democráticos” (1.1).
2 – “Temos testemunhado uma guerra contra a família tanto nacional quanto internacional. Nesta década, na Conferências das Nações Unidas, têm sido vistas tentativas para “desconstruir” a família, de forma que o sentido de “casamento”, “família” e “maternidade” é agora contestado. Tem sido estabelecida uma falsa posição entre os direitos dela e os de seus membros individuais. Sob o nome de liberdade, têm sido promovidos “direitos sexuais” espúrios e “direitos de reprodução”. Entretanto, estes direitos estão, de fato, principalmente, a serviço do controle populacional. São inspiradas em teorias científicas em descrédito, num feminismo ultrapassado e numa mal direcionada preocupação com o meio ambiente” (1.2).
João Paulo II disse que: “Hoje em dia, os inimigos de Deus, mais do que atacar frontalmente o Autor da criação, preferem defrontá-Lo em suas obras. Em torno à família se trava hoje o combate fundamental da dignidade do homem”. “Nos nossos dias, infelizmente, vários programas sustentados por meios muito poderosos parecem apostados na desagregação da família.” (Carta às Famílias, 5).
Por tudo isso é muito importante que todas as comunidades, movimentos, dioceses, paróquias, grupos de oração etc., se mobilizem nesta Semana, para reavivar os verdadeiros valores da família, antes que seja tarde demais.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Família, lugar da bênção de Deus

Família é lugar de acolher essa bênção e de multiplicá-la
Esta é uma das mais fundamentais verdades da fé cristã: a família é o privilegiado lugar escolhido por Deus, para aí derramar a sua bênção.
A bênção da família
Muito acima do sentido humano de proteção e convivência, ou seja, o papel sociológico, a família é um lugar teológico. É o lugar onde Deus se revela; é lugar onde se revela Deus. Nela, o ser humano aprende a crescer segundo o projeto de Deus. É lugar de humanização divina.
O ser humano aprende a ser humano dentro da família. Jesus crescia em estatura, em sabedoria e em graça diante de Deus e dos homens (cf. Lucas 2:25). Interessante esta anotação, pois para esse crescimento integral o próprio Jesus precisou de uma família humana. A bênção divina sobre a família não é somente uma questão espiritual, envolve também o físico e o psíquico. Ninguém é humanamente equilibrado sem alimentar essa tríplice dimensão da existência humana.
O ser humano aprende a ser humano dentro da família. Graça significa o alimento do espírito. O ser humano é físico, psíquico e espiritual. Contudo, lamentavelmente, muitas famílias se preocupam bastante apenas com a dimensão física – uma ótima casa, conforto, estudo, roupas –, mas se esquecem das outras duas dimensões. Infelizmente, a família não está sendo o lugar dessa bênção de Deus para a afetividade das pessoas.
Família deve ser o lugar onde a gente aprende a amar. Se a família é a mais perfeita semelhança de Deus, – que é amor e cria ser humano por amor e para o amor, e o cria família – ela tem de ser o lugar onde aprendemos a exercer o amor.
Para ser lugar da bênção de Deus, muitas vezes, não se precisa de muita coisa. Pequenos detalhes fazem um grande amor. Um grande amor não é feito de grandes coisas, não. Grandes coisas qualquer pessoa faz, tanto para o bem, quanto para o mal, se ela estiver no desespero. Agora, fazer a cada dia pequenas coisas de modo extraordinariamente maravilhoso, só quem tem o Espírito Santo de Deus; do contrário, não consegue. E aí está a santidade. Esse é o segredo.
Ser uma família cristã no meio do mundo é muito mais do que se dizer católico ou freqüentar determinadas práticas religiosas. Ser cristão é adequar nossa vida ao projeto de Deus, ensinado e vivido por Jesus Cristo. Ser cristão é imitar Jesus, especialmente em sua constante luta por permitir que Deus reinasse neste mundo. Uma família cristã é o espaço privilegiado para se gestar e praticar esse projeto. O casal cristão procura, a dois, realizar esse projeto de vida, e depois com todos os seus familiares e nos seus relacionamentos. É uma união de carismas e de dons para se alcançar uma meta comum.
Sendo uma realidade dinâmica, o matrimônio está aberto à construção e também às feridas que machucam e atrapalham o crescimento da vida familiar. Algumas situações acabam sendo grandes possibilidades de ruptura, mas também podem se transformar em momentos de graça e de vida plena.
É preciso aprender a construir a restauração da família.
Texto extraído do livro “Famílias restauradas” de padre Léo.