sábado, 20 de setembro de 2014

Anular o voto é pecado?

Anular o voto é pecado, é desprezar o direito sagrado de participar da vida pública.
Os últimos Papas têm insistido em que os católicos participem da vida pública, sobretudo da política, que é a ciência do “bem comum”, uma forma de fazer a caridade pública. Recentemente o Papa Francisco, ao falar sobre isso, declarou:
“Envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Nós não podemos fazer como Pilatos e lavar as mãos, não podemos. Temos de nos meter na política porque a política é uma das formas mais altas de caridade, porque busca o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. A política está muito suja, mas eu pergunto: está suja por quê? Por que os cristãos não se meteram nela com espírito evangélico? É a pergunta que faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros… Mas, e eu, o que faço? Isso é um dever. Trabalhar para o bem comum é dever do cristão”.
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Note que o Sumo Pontífice enfatizou que a política é uma das “formas mais altas de caridade”, porque é por ela que um país é governado, atendendo especialmente os mais necessitados. Contudo, se os homens e mulheres públicos forem desonestos ou despreparados, essa caridade não existirá. E a culpa, acima de tudo, é do próprio povo, porque é ele quem escolhe pelo voto seus governantes.
São aqueles que exercem cargos públicos, eleitos pelo povo, que empregam o dinheiro de todos, arrecadado por intermédio dos impostos, para cuidar do povo, especialmente os mais necessitados, investindo na saúde, no transporte público, na educação, nas moradias, no saneamento básico, no fornecimento de água, de energia, telefone, internet, entre outros.
Na sua Encíclica “Evangelii Gaudium”, em português “A Alegria do Evangelho”, o Papa Francisco repetiu: “A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum” (EG, 205).
O Papa Bento XVI afirmou o seguinte sobre esse tema: “Reitero a necessidade e urgência de formação evangélica e acompanhamento pastoral de uma nova geração de católicos envolvidos na política, que sejam coerentes com a fé professada, que tenham firmeza moral, capacidade de julgar, competência profissional e paixão pelo serviço ao bem comum” (Vaticano, 15/11/ 2008).
O Concílio Vaticano II também já tinha se pronunciado sobre isso: “Lembrem-se, portanto, todos os cidadãos ao mesmo tempo do direito e do dever de usar livremente seu voto para promover o bem comum. A Igreja considera digno de louvor e consideração o trabalho daqueles que se dedicam ao bem da coisa pública a serviço dos homens e assumem os trabalhos deste cargo” (Gaudium et Spes, 75).
E o nosso Catecismo da Igreja Católica, no número 899, repete: “A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar as realidades sociais, políticas e econômicas com as exigências da doutrina e da vida cristãs”.
Na “Christifidelis laici”, no número 42, São João Paulo II disse: “Para animar cristãmente a ordem temporal [...], os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na «política», ou seja, da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum”.
Infelizmente o demônio colocou na cabeça dos bons que a política é coisa de gente má; então, muitos maus a dominaram. É preciso acordar desse pesadelo. Os cristãos precisam ter uma participação ativa na política, não só como candidatos, como também na promoção dos bons políticos.
O povo precisa aprender a votar e a conhecer bem os candidatos. Alguns, no dia da eleição, pegam um papel de propaganda na rua e dão o seu voto a qualquer um. Pior ainda são os que anulam o voto ou votam em branco, jogando fora o direito e o dever sagrado de participar da vida da nação. E, ao agirem assim, acabam facilitando a eleição dos piores. Anular o voto é pecado, é desprezar o direito sagrado de participar da vida pública. O voto nulo ajuda o mau político a se eleger. Se não gostamos de nenhum candidato devemos votar no “menos ruim”, mas nunca em branco ou nulo, pois alguém será eleito.
Hoje com a internet, ficou mais fácil saber quem é político e quem é “politiqueiro”; quem quer trabalhar para o povo e quem quer trabalhar para si mesmo. Então, é fundamental que os cristãos informem seus irmãos e suas comunidades sobre quem não merece o voto deles.
Precisa ficar claro que a política é boa, o que não presta é a politicagem; e que o político é bom, o que não presta é o “politiqueiro”.
O pior problema hoje do nosso país é que grande parte da população é alienada da vida pública, não lê um jornal, uma boa revista sobre o assunto, limita-se a ver noticiários de televisão e se deixa, muitas vezes, enganar por um favor que recebe. São pessoas que votam com o estômago e não com a cabeça.
O voto é sagrado, é a arma da democracia se ele for dado com conhecimento de causa e com honestidade, sem se vender. Contudo, se não houver nada disso, a democracia ficará doente e poderá se tornar ditadura disfarçada.
O Brasil carece de uma reforma política séria, por meio da qual se implante, por exemplo, o voto distrital, se acabe com o tal “coeficiente eleitoral”, que faz com que muitos sejam eleitos com os votos de outros. Mas tudo isso só acontecerá quando houver uma mudança na qualidade dos nossos governantes.
Muitos que hoje são eleitos têm suas caríssimas campanhas políticas custeadas por grandes corporações: sindicatos, igrejas, cooperativas, empresários, entre outros. Depois de eleitos, vão trabalhar para o bem do povo? Não. Para o bem de quem os custeou. Desse modo, a política como caridade não existe e os lobbies a dominam. Então, é preciso termos governantes eleitos, de fato, pelo povo, conscientizado e não comprado com caros investimentos. Cabe a cada cristão se conscientizar a respeito disso e conscientizar seus irmãos para que não sejam manipulados, comprados e subjugados.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Existem homens e mulheres criados para a política

Deus deu a alguns homens e mulheres os dons e as características necessárias para ocuparem cargos públicos.
No mês de agosto, a Igreja dedica um olhar especial às vocações. Entre as tantas vocações para as quais o Senhor convoca Seus filhos a servir, encontramos uma que sofre grandes golpes em nossa atualidade: a vocação à política. Talvez, soe como novidade para alguns encarar esse ramo como uma vocação, mas para a Igreja ela é real, tanto que, em suas orações litúrgicas, encontramos várias vezes a intercessão pelas autoridades e pelos governos.
O termo “política” denomina arte ou ciência de organização; muito mais que isso, o Papa Paulo VI afirmou que “a política é uma forma sublime do exercício da caridade”. Se observarmos, em todos os tempos, Deus suscitou homens para guiar Seu povo. Foi assim ao escolher Moisés, Elias, Eliseu, Samuel, Saul, Davi… Enfim, em cada etapa que o povo de Deus se encontra, detectamos um líder, e por que não dizer, um político.
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Claro que podemos encontrar diversas características que podem divergir na ideia de se comparar líderes do povo de Deus aos políticos da atualidade. Mas, ao fazermos tal comparação, podemos observar que o Senhor dá a alguns homens os dons e as características necessárias para organizar, dar diretrizes e criar normas para que os direitos de cada pessoa sejam atendidos e para que também os deveres sejam realizados. A partir disso, compreendemos o que Paulo VI disse ao ligar a vocação do político à virtude da caridade, ou seja, seu papel está em servir e não em ser servido.
No Evangelho de João 6,5-12, Jesus pergunta a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que estes possam comer?”. Vemos, então, que o discípulo fica perdido, pois não sabe a solução para o problema. Como ele, pobre e sem alimento até mesmo para si, poderia alimentar aquela multidão? O Evangelho relata que Jesus disse isso para testar Filipe, pois Ele sabia muito bem o que ia fazer.
Esse Evangelho expressa a vocação do cristão: viver a caridade. A política constrói o cenário ideal para que esse Evangelho possa ser praticado. O desejo de Deus é que os líderes das nações tenham um espírito cheio de amor e compaixão pelo povo, de maneira especial pelos mais pobres, e que tragam o coração inclinado para a renúncia, prática sem a qual não conseguiriam viver com plenitude o papel que lhes cabe.
O que Deus espera de Seus líderes, comparado ao que vemos nos governos de hoje em nosso país, nos leva a perceber que nem sempre esse papel é bem exercido. Se existem pessoas portadoras de dons e características dadas pelo próprio Deus para exercer em tais funções, o que há de errado com esses cargos?
Podemos encontrar na frase do Papa Pio XII uma boa resposta: “Onde faltam homens honestos, outros vêm ocupar-lhes o lugar para fazer da atividade política arena das suas ambições, uma corrida aos ganhos próprios e de sua classe”. Vemos hoje uma política suja e vendida aos que corrompem e desonram o cargo que ocupam. Não são em sua totalidade, mas é notável a carência de opções na hora de escolher um candidato para ocupar um cargo público. Torna-se inaceitável que nós cristãos possamos escolher para o governo pessoas que discursam contra os princípios fundamentais da vida humana deixados por Cristo.
Papa Pio XII deixa claro, em sua frase, que há a necessidade de pessoas comprometidas com o Evangelho engajadas na política. Precisamos de representantes tementes a Deus, que possam se colocar a serviço do povo, com desejo de agradar ao Senhor. Também precisamos de eleitores que, na hora de escolher um candidato, sejam atentos e conscientes, pois um homem que não é movido pelo Espírito de Deus não tem a capacidade de conduzir uma nação para uma verdadeira caridade.
A omissão dos bons ocasionou o domínio dos corruptos. Os homens confiantes em Deus poderão levar para o meio do povo o milagre feito por Jesus.
Quem aí tem cinco pães e dois peixinhos para ofertar?

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A lógica da Cruz

A Igreja celebra a Exaltação da Santa Cruz como uma grande festa.
Recentemente apareceram notícias de pessoas sendo crucificadas! Em nosso tempo praças ficaram cheias de gente pregada na cruz, outras degoladas, levas de homens, mulheres e crianças, enfermos, anciãos, num roldão de intolerância impensável em tempos que se consideram civilizados. É a cruz que comparece de novo!
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Percorrendo estradas, pelo Brasil afora, não é raro encontrar em algumas colinas a Cruz, elevada e imponente, muitas vezes iluminada, outras enfeitadas com os símbolos da paixão de Cristo, cravos, coroa, lençol ou lança. E a mesma Cruz é vista, como sinal de fé, em locais marcados por acidentes, nos quais homens e mulheres tiveram suas vidas ceifadas. É ainda a Cruz que comparece serena sobre as sepulturas cristãs, como identificação do tipo de pessoa ali plantada, no respeito ao corpo marcado pela graça do Batismo. Ela ainda é vista em salas de aulas, repartições públicas, tribunais e em nossas casas, trabalhada pela arte e pela devoção de gerações de cristãos, vista de diversas perspectivas. Muitos a trazem como enfeite precioso, outros a escolhem de lenho despojado, para declarar os rumos de suas opções de fé. O sinal da Santa Cruz, que nos livra dos inimigos estará sempre presente, onde quer que esteja um homem ou mulher de fé. E a Igreja celebra a Exaltação da Santa Cruz como uma grande festa, sabendo que a sabedoria nela escondida e revelada continuará atual e poderosa.
Contam-se histórias, inventadas com verdade e singeleza, como aquela da pessoa que julgava pesada a própria cruz. Deixada na liberdade da escolha, foi procurar num imaginado “depósito” de cruzes, a mais adequada às suas condições. Depois de muito analisar, não se apercebeu a mesma cruz deixada à porta, foi de novo abraçada e carregada. Outro personagem descobriu que a Cruz considerada muito grande era justamente a medida de uma ponte necessária à superação de um abismo. São formas simpáticas, criadas pelo imaginário popular, com as quais o Evangelho da Cruz, tão antigo e novo e, mais ainda, necessário, continua a ser anunciado nos púlpitos do cotidiano. Por mais que dela se pretenda escapar, a Cruz comparecerá nas curvas da vida, e não há exceções.
No entanto, é bom que se esclareça o sentido profundo e verdadeiro da Cruz. O sofrimento sozinho não deve e nem pode ser procurado, num gosto mórbido e destruidor da vida humana. Dificuldades, dores ou problemas têm a vocação de se transformarem em Cruz, quando se acrescenta o único ingrediente com o qual a vida ganha sentido, o amor. A cruz com a qual foram supliciadas tantas pessoas foi redimida e se transformou em sinal e caminho de salvação por aquele que nela se imolou para a salvação da humanidade. Só a entrega livre, a descida à condição de escravidão e liberdade, no amor eterno, feita por quem não se apegou à sua igualdade com Deus (Cf. Fl 2, 6-11), na morte de Cruz, dá sentido a tudo o que se faz, inclusive o sofrimento e a dor. Aí se joga com a liberdade humana!
Podemos ficar apenas com problemas, dores, angústias, enfermidades ou outras expressões com as quais qualificamos os desafios da vida humana, ou aproveitamos a graça de dar-lhes um nome sagrado, Cruz, unindo-nos a Cristo e escolhendo-o como Senhor e Salvador, para ter a vida eterna, não só depois de sermos apresentados diante da face de Deus, no limiar da eternidade, mas agora, no momento presente em que o Senhor nos quer realizados e felizes.
Vale a pena fazer um exercício, olhando para a Cruz de Cristo (Cf. Jo 3, 13-17). A Cruz aponta para o alto, para a grandeza do eterno. Mirar o relacionamento com Deus é resposta humana àquele que criou, por desígnio admirável, a maravilhosa aventura de estar nesta terra. Buscar as coisas do alto (Cf. Cl 3, 1-2) é atitude digna dos filhos de Deus. E pode iluminar o cotidiano de forma surpreendente. Pensa no que é melhor, no mais perfeito, naquilo que é mais santo, deixar-se envolver pela beleza com que Deus pensou a humanidade, ter sonhos de paraíso, sim! E a Cruz tem uma outra haste, horizontal, braços que se abrem e acolhem no amor tudo o que é humano. É a escolha do relacionamento amigo e verdadeiro com as outras pessoas, com a sensibilidade de quem olha ao redor e não deixa escapar qualquer possibilidade para amar e fazer o bem.
As duas hastes da Cruz se “cruzam” no coração humano! É lá dentro, no íntimo das escolhas inteligentes e livres simbolizadas justamente pelo coração é que se encontra a possibilidade de transformar dor, sofrimento, problemas ou incógnitas em caminho de salvação. Também as alegrias serão transformadas em Cruz e ganharão sentido, quando estes dois movimentos se fizerem presentes, olhar para o alto e abrir os braços no amor ao próximo. Sim, pois também gargalhadas dadas, ou outras expressões efusivas dos sentimentos humanos, sem o amor se esvaziam e esvaziam a vida. Só em Cristo e em seu mistério a história pessoal e a da humanidade encontram rumo e sentido.
Ainda a verdade da Cruz! É que ela é uma face do mistério, que tem o outro lado, a Ressurreição. Quando se abraça a vida e todos os seus desafios com amor, a força do Cristo, que venceu a morte e a dor, resplandece gloriosa. O convite à fé cristã faz de nós homens e mulheres pascais, capazes de passar continuamente da morte à vida. O segredo estará sempre na tomada de consciência, momento por momento, das infinitas possibilidades criadas pelo amor de Deus. Uma dificuldade na saúde será aproveitada para oferecer tudo o que se vive, sem deixar de lado os necessários cuidados, com os meios oferecidos pela ciência de nosso tempo. Uma crise familiar ressoará no coração como apelo a sair de si mesmo, para amar e servir com maior dedicação. As muitas situações sociais e econômicas, do emprego à política ou outros problemas, tudo haverá de ser enfrentado com maior serenidade, passando continuamente da morte à vida. Até as crises de fé poderão ser enfrentadas com paz pelas pessoas que começam a sair de si, para amar e servir ao próximo, entregando-se e confiando na força que brota da Cruz de Cristo, com a qual a luz comparece de novo nos caminhos da existência.