13/11/2017

Não se esqueça de viver

Viver é ser responsável, sim, mas também ser livre para ser quem é

Alguma vez, na vida, você já se esqueceu de viver? Eu já!
Gosto muito do clássico Pollyana’, de Eleanor Porter, que narra a história de uma menina, filha de um missionário pobre, que, após ficar órfã, vai morar em outra cidade com sua tia Polly Harrigton, uma madame que possuía muitos bens materiais e grande influência em todos os setores da sociedade, mas era infeliz. Na concepção de Pollyana, ela não sabia viver. Segundo a garota, viver era ter um tempo só seu, no qual pudesse fazer coisas de que gostava sem se preocupar com regras, horários e leis; e a tia Polly tinha regras, horários e leis para tudo.
Foto ilustrativa: Wesley Almeida / cancaonova.com
O certo é que, com a chegada da menina, de uma hora para outra, tudo começou a mudar em Beldingsville, uma típica cidadezinha dos Estados Unidos. A tia Polly, aos poucos, tornou-se uma pessoa melhor, mais amável, e o mesmo acontece com praticamente todos os que conhecem aquela garota e seu incrível ‘Jogo do Contente’. É que Pollyanna não aceita desculpas para a infelicidade e empenha-se, de corpo e alma, em ensinar às pessoas o caminho para superar a tristeza e valorizar a vida.

A criança que ainda existe dentro de nós

Em muitos aspectos, concordo com ela; aliás, esse livro é um dos que mais marcaram minha vida até hoje. Assim como aquela garota, acredito que viver é ser responsável sim, mas também ser livre para ser quem é, sem precisar prestar contas, ao mundo, da roupa que se veste e de cada passo que se dá. É ter tempo para estar com as pessoas que se ama, ouvir o canto dos pássaros, contemplar as flores, correr no parque, fazer castelos na areia e rir de si mesmo quando sentir vontade.
Tempos atrás, levei um susto ao perceber que não estava “vivendo”. Envolvida em um exigente projeto dentro da missão evangelizadora que assumo, estava dedicando-lhe mais tempo do que deveria. Dormia e acordava pensando nas melhores chances de conquistar as metas do dia seguinte, e, quase sem perceber, minha vida estava girando em torno de tal projeto.
Era tudo com boa intenção, já que a meta era evangelizar, mas, certamente, estava indo por atalhos, não pelo caminho certo. Até que, ao voltar para casa, num fim de tarde, observei, no jardim do prédio onde moro, várias florzinhas – daquelas que soltam suas sementes e voam pelo ar quando as sopramos. Lembrei-me, rapidamente, do quanto gosto dessas flores e me admirei de não as ter enxergado antes, sendo que passava no mesmo lugar no mínimo duas vezes ao dia! Parei um pouco, sentei-me ali mesmo e fui soprando as flores, do jeito que eu fazia quando era criança e continuo repetindo o ato até hoje.
Parece que, quando vejo as sementinhas suspensas no ar, sendo levadas para o alto pelo vento, sinto-me mais livre, mais leve, mais perto de Deus; e a agitação e os problemas do dia a dia, por um instante, voam com elas. É uma sensação muito boa! Experimente fazer isso e você vai perceber que a criança que você era ainda está dentro de você e se alegra com coisas assim, bem simples.

O desafio do ativismo em nossa vida

Naquele fim de tarde, sentada no muro do canteiro, fui percebendo que havia dias em que eu me esquecia de fazer as coisas simples e descomplicadas, as quais me causam tanto bem. Eu havia permitido que o trabalho definisse minha rotina e roubasse-me a leveza da vida. Tudo foi passageiro e superado com sucesso, graças a Deus, mas não pretendo repetir a experiência!
Sei que não estou imune ao ativismo, porque me vejo, continuamente, diante de grandes desafios no exercício da missão assumida, mas continuo buscando o equilíbrio entre o fazer e o ser. Sei que o mais importante, diante de Deus, não é o que faço, mas quem realmente sou para Ele.
Leia mais:

Não é o caso de arranjar desculpas, mas a realidade de nosso tempo, considerado a “Era do Desenvolvimento”, põe-nos diante do grande perigo, que é passar pela vida sem sentir o prazer de viver.
Contemplamos uma sociedade “controlada” pela sede do saber, ter e poder, porém, mesmo “sabendo” e “tendo” tanto, não pode viver com liberdade usufruindo do que possui.
É preciso empenho para não se deixar levar por essa correnteza, e aí entram a fé e a fidelidade aos nossos princípios de vida para nos sustentar.

Tenha a coragem de parar um pouco

Precisamos pontualizar onde queremos chegar, de fato, e seguir em frente sem perder a inspiração inicial. O trabalho é importante e necessário, mas não tem o direito de nos escravizar, a não ser que lhe demos essa chance.
Hoje, se a vida está cheia de compromissos e lhe falta tempo para fazer as coisas de que você mais gosta, tenha a coragem de parar, nem que seja um pouco, e priorizar o que realmente é mais importante para você. Acredito que terá ótimas surpresas, como eu as tenho tido.
Lembre-se: a vida é o que temos de mais precioso! Não se esqueça de viver!

Autora: Dijanira Silva

06/11/2017

A solidão e o silêncio revelam o que somos

A experiência do deserto e da solidão é de grande valia para que o ser se contemple

Uma condição essencial para que nossos relacionamentos sejam equilibrados e sadios é a qualidade do relacionamento que temos com nós mesmos. Se nosso coração não tem a devida maturidade para enfrentar-se em sua real identidade, este se construirá de maneira oca e ausente de inteireza.
A experiência do deserto e da solidão é de grande valia para que o ser se contemple e se enfrente, e assim possa compreender-se como é. De forma a nos oferecer uma rica possibilidade de encontro, remetendo-nos ao encontro com nós mesmos e nos preparando para, a partir da consciência do que somos, nos encontrarmos verdadeiramente com o outro.
Foto: Wesley Almeida / cancaonova.com
Há quem não se permita viver a experiência da solidão e tende a criar barulhos e ocupações por receio do silêncio, o qual revela o que somos.
Existem aqueles que afirmam “ser de todos” e comunicar-se, constantemente, com todos; porém, é preciso recordar que o lançar-se na dimensão relacional não pode ser fuga, mas sim um passo consciente de alguém resolvido em sua individualidade, que deseja doar e comunicar o que é e também acolher a verdade expressa por outro. Contudo, ninguém pode doar-se se antes não se possuir.
Os desertos proporcionados pela vida, se bem direcionados, podem preparar-nos qualitativamente para o encontro com os demais, e principalmente, para o encontro com Deus.

A solidão e o silêncio revelam o que somos

A solidão e o silêncio revelam o que somos, fazendo-nos entender nossa singularidade e, consequentemente, a singularidade daqueles que nos acompanham. Ao vivê-los [solidão e silêncio], aprendemos a compreender as diferenças que nos caracterizam, assim como as de cada pessoa. Então, poderemos reconhecer: “O outro não sou eu. Ele pensa, vive e ama de outra forma, e desse modo, precisa ser respeitado e acolhido”. No deserto, descubro um outro que possui uma singularidade e que não tem a obrigação de ser do jeito que eu quero nem de corresponder às minhas carências e frustrações.
Quando passamos a nos enxergar, fazendo a experiência de nos aceitar como somos, podemos amar inteiramente aos outros sem os forçar a ser o que desejamos. O amor real não exige que o outro se encaixe em nosso modelo de perfeição, este compreende e aceita quem o outro é.
A solidão ajuda a formar em nós essa percepção, preparando-nos para um qualitativo encontro, pois nela somos capazes de nos contemplar, compreender e nos doar com inteireza. Por isso, é preciso assumir-se para doar-se, percebendo-se como único, para assim poder acolher a unicidade de outra pessoa. Um pouco de solidão, muitas vezes, tem a função de nos equilibrar quando bem vivida (no autoconhecimento) e direcionada, tendo como meta o amor e a autodoação.

A experiência do deserto

O deserto é também experiência de liberdade, de perceber-se livre e amado por Deus, que respeita o que somos, e entender que para amar uma pessoa é preciso renunciar a uma mentalidade de posse, deixando-a livre para expressar-se como é.
Que essa bela experiência do deserto nos confira profundidade e nos leve a compreender nosso imenso valor e o de cada pessoa. Dessa maneira, poderemos amar com mais qualidade e com o sagrado respeito que nos torna mais autênticos e encontrados em nossa essência, possibilitando-nos a realização com relação ao que somos.


Autor: Padre Adriano Zandoná

02/11/2017

O Dia de Finados

A COMEMORAÇÃO NA HISTÓRIA

Os primeiros vestígios de uma comemoração coletiva de todos os fiéis defuntos são encontrados em Sevilha (Espanha), no séc. VII, e em Fulda (Alemanha) no séc. IX.
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O fundador da festa foi Santo Odilon, abade de Cluny, o qual a introduziu em todos os mosteiros de sua jurisdição, entre os anos 1.000 e 1.009. Na Itália em geral, a celebração já era encontrada no fim do séc. XII e, mais precisamente em Roma, no início do ano de 1.300. Foi escolhido o dia 2 de novembro para ficar perto da comemoração de todos os santos.
Neste dia, a Igreja especialmente autoriza cada sacerdote a celebrar três Missas especiais pelos fiéis defuntos. Essa prática remonta ao ano de 1915, quando, durante a Primeira Guerra Mundial, o Papa Bento XV julgou oportuno estender a toda Igreja esse privilégio de que gozavam a Espanha, Portugal e a América Latina desde o séc. XVIII.

NA TRADIÇÃO DA IGREJA

Tertuliano (†220) Bispo de Cartago – afirma: “A esposa roga pela alma de seu esposo e pede para ele refrigério, e que volte a reunir-se com ele na ressurreição; oferece sufrágio todos os dias aniversários de sua morte” (De monogamia, 10).
O prelado atesta o uso de sufrágios na liturgia oficial de Cartago, que era um dos principais centros do Cristianismo no século III: “Durante a morte e o sepultamento de um fiel, este fora beneficiado com a oração do sacerdote da Igreja” (De anima 51; PR, ibidem).
Falando da vida de Cartago, no século III, afirma Vacandart, sobre a vida religiosa: “Aí vemos o clero e os fiéis a cercar o altar […] ouvimos os nomes dos defuntos lidos pelo diácono e o pedido de que o bispo ore por esses fiéis falecidos; vemos os cristãos […] voltar para casa reconfortados pela mensagem de que o irmão falecido repousa na unidade da Igreja e na paz do Cristo” (PR, ibidem).
São Gregório Magno (540-604), Papa e Doutor da Igreja, declara:
“No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma Aquele que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver cometido uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoada nem no presente século nem no século futuro (cf. Mt 12,31). Dessa afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro” (dial. 4, 39).
São João Crisóstomo (349-407), Bispo e Doutor da Igreja, afirma:
“Levemos-lhe socorro e celebremos a sua memória. Se os filhos de Jó foram purificados pelos sacrifícios de seu pai (Jó 1,5), porque duvidar que as nossas oferendas em favor dos mortos lhes leva alguma consolação? Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer as nossas orações por eles” (Hom. 1Cor 41,15). E “Os Apóstolos instituíram a oração pelos mortos e esta lhes presta grande auxílio e real utilidade” (In Philipp. III 4, PG 62, 204).
“Da mesma forma, rezando nós a Deus pelos defuntos, ainda que pecadores, não lhe tecemos uma coroa, mas apresentamos Cristo morto pelos nossos pecados, procurando merecer e alcançar propiciação junto a Deus clemente, tanto por eles como por nós mesmos” (idem).
Santo Epifânio (†403), Bispo da ilha de Chipre, diz:
“Sobre o rito de ler os nomes dos defuntos (no sacrifício) perguntamos: que há de mais nisso? Que há de mais conveniente, de mais proveitoso e mais admirável que todos os presentes creiam viverem ainda os defuntos, não deixarem de existir, e sim existirem ao lado do Senhor? Com isso se professa uma doutrina piedosa: os que oram por seus irmãos defuntos abrigam a esperança (de que vivem), como se apenas casualmente estivessem longe. E sua oração ajuda aos defuntos, mesmo se por elas não fiquem apagadas todas as dívidas […]. A Igreja deve guardar este costume, recebido como tradição dos Pais […] a nossa Mãe, a Igreja, nos legou preceitos, os quais são indissolúveis e definitivos” (Haer. 75, c. 8: pág. 42, 514s).
Os Cânones de Santo Hipólito (160-235), que se referem à Liturgia do século III, contêm uma rubrica sobre os mortos […] “[…] Caso se faça memória em favor daqueles que faleceram […]” (Canones Hippoliti, em Monumenta Ecclesiae Liturgica; PR, 264, 1982).
Serapião de Thmuis (século IV), Bispo, no Egito, compôs uma coletânea litúrgica, na qual se pode ver a intercessão pelos irmãos falecidos:
“Por todos os defuntos dos quais fazemos comemoração, assim oramos: “Santifica essas almas, pois Tu as conheces todas; santifica todas aquelas que dormem no Senhor; coloca-as em meio às santas Potestades (anjos); dá-lhes lugar e permanência em teu reino” (Journal of Theological Studies t. 1, p. 106; PR , 264, 1982).
“Nós te suplicamos pelo repouso da alma de teu servo (ou de tua serva); dá paz a seu espírito em lugar verdejante e aprazível, e ressuscita o seu corpo no dia que determinaste” (PR, 264,1982).
As Constituições Apostólicas, do fim do século IV, redigidas com base em documentos bem mais antigos, no livro VIII da coleção, relata:
Oremos pelo repouso de (citar nome), a fim de que o Deus bom, recebendo a sua alma, lhe perdoe todas as faltas voluntárias e, por sua misericórdia, lhe dê o consórcio das almas santas.

SOBRE AS INDULGÊNCIAS

Constituição Apostólica Doutrina das Indulgências Papa Paulo VI, 1967, diz:
“A doutrina e o uso das indulgências vigentes na Igreja Católica há vários séculos encontram sólido apoio na Revelação divina, a qual vindo dos Apóstolos, se desenvolve na Igreja sob a assistência do Espírito Santo, enquanto a Igreja no decorrer dos séculos, tende para a plenitude da verdade divina, até que se cumpram nela as palavras de Deus (Dei Verbum, 8) e ( DI, 1).
Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida aos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos (Norma 1).
“Assim nos ensina a revelação divina que os pecados acarretam como conseqüência penas infligidas pela santidade e justiça divina, penas que devem ser pagas ou neste mundo, mediante os sofrimentos, dificuldades e tristezas desta vida e, sobretudo, mediante a morte, ou então no século futuro […]” (DI, 2).
“Pelas indulgências, os fiéis podem obter para si mesmos e também para as almas do Purgatório, a remissão das penas temporais, sequelas dos pecados” (Catecismo da Igreja Católica, 1498).

CONDIÇÕES PARA GANHAR A INDULGÊNCIA PLENÁRIA

Para si ou para uma alma
1 – Confessar-se bem, rejeitando todo pecado;
2 – Participar da Santa Missa e comungar com esta intenção;
3 – Rezar pelo Papa ao menos um Pai Nosso, Ave Maria e Glória e
4 – Visitar o cemitério e rezar pelo falecido.
Obs.: Fora da semana dos falecidos, o item 4 pode ser substituído por: Terço em família diante de um oratório, Via-Sacra na igreja; meia hora de adoração do Santíssimo ou meia hora de leitura bíblica meditada.
Leia mais:

Autor: Prof. Felipe Aquino

01/11/2017

Solenidade de todos os Santos




A Igreja celebra a santidade dos cristãos que se encontram no Céu, para nos mostrar a vocação universal de todos para a felicidade eterna
“Todos os fiéis cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade. Todos são chamados à santidade: ‘Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito’ “(Mt 5,48) (CIC 2013).

Sendo assim, nós passamos a compreender o início do sermão do Abade São Bernardo: “Para que louvar os santos, para que glorificá-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas? A eles que, segundo a promessa do Filho, o Pai celeste glorifica? Os santos não precisam de nossas homenagens. Não há dúvida alguma, se veneramos os santos, o interesse é nosso, não deles”.

Sabemos que desde os primeiros séculos os cristãos praticam o culto dos santos, a começar pelos mártires, por isto hoje vivemos esta Tradição, na qual nossa Mãe Igreja convida-nos a contemplarmos os nossos “heróis” da fé, esperança e caridade. Na verdade é um convite a olharmos para o Alto, pois neste mundo escurecido pelo pecado, brilham no Céu com a luz do triunfo e esperança daqueles que viveram e morreram em Cristo, por Cristo e com Cristo, formando uma “constelação”, já que São João viu: “Era uma imensa multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9).

Todos estes combatentes de Deus, merecem nossa imitação, pois foram adolescentes, jovens, homens casados, mães de família, operários, empregados, patrões, sacerdotes, pobres mendigos, profissionais, militares ou religiosos que se tornaram um sinal do que o Espírito Santo pode fazer num ser humano que se decide a viver o Evangelho que atua na Igreja e na sociedade. 

Portanto, a vida destes acabaram virando proposta para nós, uma vez que passaram fome, apelos carnais, perseguições, alegrias, situações de pecado, profundos arrependimentos, sede, doenças, sofrimentos por calúnia, ódio, falta de amor e injustiças; tudo isto, e mais o que constituem o cotidiano dos seguidores de Cristo que enfrentam os embates da vida sem perderem o entusiasmo pela Pátria definitiva, pois “não sois mais estrangeiros, nem migrantes; sois concidadãos dos santos, sois da Família de Deus” (Ef 2,19).

Neste dia a Mãe Igreja faz este apelo a todos nós, seus filhos: “O apelo à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade se dirige a todos os fiéis cristãos.” “A perfeição cristã só tem um limite: ser ilimitada” (CIC 2028).

Todos os santos de Deus, rogai por nós!


O perigo das falsas amizades e como lidar com elas

As falsas amizades são os maiores obstáculos para o crescimento espiritual

Assim como Deus nos dá amigos para nos conduzir à vida eterna e experimentarmos as realidades do céu, corremos o risco de nos deixar confundir pela falsidade, pelo erro das amizades que podem aparecer para nos desencaminhar da santidade e da verdade. Precisamos pedir o discernimento dos espíritos [cf. I Coríntios 12,10], a fim de analisar se as amizades são de Deus ou não.
Foto: AntonioGuillem by Getty Images
Podemos ter amigos que querem nosso bem e outros que querem o mal. Estes últimos são chamados de falsos amigos. As falsas amizades são as que se fundem em qualidades sensíveis ou frívolas: “Não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas ideias frívolas” (cf. Efésios 4,17), que são uma espécie de egoísmo disfarçado. Essas amizades vivem daquilo que é mundano: “Principalmente aqueles que correm com desejos impuros atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade” (cf. II Pedro 2, 10).

Três espécies de falsas amizades

São Francisco de Sales distingue três espécies de falsas amizades: as amizades carnais, que atraem pelas paixões carnais e pela devassidão (cf. II Pedro 2, 18) buscando os prazeres voluptuosos; as amizades sensuais, que se prendem ao ver a formosura, ao ouvir uma doce voz, ao tocar; e as amizades frívolas, fundadas em qualidades vãs (festas, bebedeiras etc).
Existem diversos tipos de amigos falsos: os amigos do copo, que se reúnem somente para beber; amigos da prostituição; amigos do furto e roubo; amigos de fofocas; amigos de ganância e interesses; amigos do sexo.

Como podemos identificar a origem dessas falsas amizades?

Partimos da origem: elas começam de maneira repentina e forte, pois parte de uma simpatia, de um instinto, de qualidades exteriores e brilhantes e emoções vivas ou apaixonantes. Seu desenvolvimento: alimentadas por meios de conversas insignificantes, mas afetuosas, outras por meio de conversas muito íntimas e perigosas, por olhares frequentes, por carícias entre outros. Efeitos: são vivas, absorventes e exclusivas, imaginam que serão eternas e seguidas por outras afeições.
Perigos dessas amizades: são os maiores obstáculos para o crescimento espiritual. À medida que os apegos vão crescendo, vai-se perdendo o recolhimento interior, a paz da alma, o gosto dos exercícios espirituais e do trabalho. O pensamento foge, muitas vezes, para o amigo ausente. A sensibilidade toma as rédeas da vontade, a qual se torna fraca. Partindo para os perigos relacionados à pureza.
Devemos fugir dessas amizades por intermédio da aplicação do remédio certo desde o começo, pois assim é mais fácil, porque o coração ainda não está preso. O rompimento deve ser feito de maneira firme e energética. É necessário evitar procurar e pensar na pessoa em questão, e cortar toda espécie de vínculo ou ligação, antes que seja tarde.
“Cortai, despedaçai, rompei; não vos deveis deter a descoser essas loucas amizades, é forçoso rasgá-las; não convém desatai os seus nós, devem-se romper ou cortar” (São Francisco de Sales). Quem se expõe ao perigo acaba por sucumbir.

Autor: Padre Reinaldo Cazumbá

31/10/2017

Experiências dolorosas do passado influenciam meu jeito de amar?

Será que alguma experiência dolorosa do passado continua exercendo influência sobre meu jeito de amar?

Já é tarde da noite e lá fora há um silêncio rural, interrompido somente pelo vento, e que hoje está mais forte, anunciando uma nova estação. A impressão que tenho é que tudo está tranquilo lá fora e aqui dentro de minha alma. Mas não seria só uma impressão?
O fato é que tenho, em minhas mãos, um livro que se tornou meu amigo e conselheiro nesses últimos dias. De autoria do pesquisador e escritor Roberto Shinyashiki e Eliana Dumêt, ele trata sobre diversos assuntos ligados ao relacionamento humano, inclusive o medo de amar. Paro na página que acabo de ler e começo a escrever como que a me certificar do que aprendi, mas também para partilhar com você, leitor, algo que, segundo imagino, lhe fará o mesmo bem que fez a mim. Você já sentiu medo de amar? De relacionar-se com profundidade? Sabe de onde vem esse medo?
Foto: Wesley Almeida / cancaonova.com

O exemplo do camundongo

O escritor narra um experimento realizado pela Psicologia, que responde, de forma figurada, a esta e a outras perguntas ligadas a este assunto: o amor. Um cientista colocou um ratinho em uma gaiola para avaliar o comportamento dele. Ele conta que, no início, o animal ficou passeando de um lado para o outro, movido pela curiosidade. Ao sentir fome, dirigiu-se ao alimento depositado lá. No entanto, ao tocar no prato, no qual o pesquisador havia instalado um circuito elétrico, o animalzinho levou um grande choque, tão forte que, se não desistisse de o tocar, poderia morrer.
Depois do ocorrido, o camundongo correu na direção oposta ao prato. Se pudéssemos perguntar-lhe se ele estava com fome, certamente responderia que não, porque a dor provocada pelo choque, com certeza, faria com que desprezasse o alimento naquele momento. Depois de algum tempo, porém, o ratinho entrou em contato com a dupla possibilidade de morte: pelo choque ou pela fome. Contudo, quando a fome se tornou insuportável, o animal, vagarosamente, foi novamente em direção ao alimento. Nesse meio tempo, no entanto, o pesquisador desligara o circuito. O prato não estava mais eletrificado. Porém, quando quase iria tocá-lo, o ratinho teve a sensação de que levara um segundo choque. Houve taquicardia, os pelos ficaram eriçados e ele correu, mais uma vez, em direção oposta ao prato. Se lhe perguntássemos o que havia acontecido, a resposta seria: “Levei outro choque”. Embora a energia elétrica estivesse desligada, e ele não soubesse disso.
A partir desse momento, o ratinho vai entrando numa grande tensão e seu objetivo passa a ser o de encontrar uma posição intermediária entre o limite da fome e o da obtenção do alimento, para que tenha certa tranquilidade. Esse estado é chamado de ponto de equilíbrio, porque representa uma posição entre o se fazer alguma coisa, no caso alimentar-se, e, ao mesmo tempo, evitar um novo choque.

O choque de sentir-se rejeitado

É provável que você esteja se perguntando: o que isso tem a ver com medo de amar? Eu diria: Tudo!. Muitas vezes, vemos pessoas ou até nos vemos “tomando choque” sem nem mesmo tocar no “prato”. Basta analisar em quantas ocasiões sentimos vontade de convidar alguém para sair, conversar, ir à praia ou ao cinema, mas não fizemos nada disso temendo levar o “choque do ‘não'”! Ou ainda, quantas vezes deixamos de dizer às pessoas o quanto elas nos fazem bem e quanto as amamos, por medo de que o sentimento não seja recíproco e com isso nos sintamos rejeitados?
Segundo o pesquisador, isso é tomar um “choque sem tocar no prato”.
O fato é que experiências dolorosas do passado podem provocar um medo terrível de novos sofrimentos. O pior é que quase sempre esquecemos que nem todos os “pratos” estão eletrizados, ou seja, nem todas as pessoas têm as mesmas inseguranças ou outras fraquezas que, algum dia, nos deram um choque.
Segundo estudos científicos, a compreensão do que sentimos é o melhor estímulo de que precisamos para recomeçar.

Ir além do medo de novos sofrimentos

Talvez, hoje, seja o dia propício para fazer uma pausa e pensar: Será que alguma experiência dolorosa do passado continua exercendo influência sobre meu jeito de amar e sobre a profundidade de meus relacionamentos?
Amar é a primeira condição para estarmos em constante comunhão com Deus. Não temos o direito de nos privar dessa vocação maravilhosa que o Senhor imprimiu em nosso coração no ato da criação.
“Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor” (cf. I João 4,7-8).
Que o Mestre do Amor nos encoraje a irmos além do medo e amarmos, com profundidade, aqueles que Ele, em Sua infinita bondade, aproxima de nós.

Autor: Dijanira Silva

30/10/2017

O orgulho é o grande arqui-inimigo da vontade de perdoar

Nossa atitude humilde frente à luta contra o orgulho

Quem, ao ser tomado pelo ímpeto e na certeza de estar fazendo a coisa certa, já feriu aquela pessoa com quem convive? Seja numa resposta atravessada ou numa atitude grosseira, contribuímos, de alguma forma, com a divisão ou o isolamento das amizades. Passado algum tempo, já com a cabeça fria, percebemos que procedemos de maneira equivocada, ferindo pessoas ou até mesmo nos ferindo. Refletir sobre o nosso ato nos ajuda a perceber o momento em que agimos precipitadamente; dessa reflexão, vem o remorso, o qual nos prepara para o pedido de desculpas.
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Foto: Wesley Almeida/cancaonova.com

Deixar de lado o orgulho

Reconhecer que fomos precipitados nos argumentos significa, muitas vezes, humilharmo-nos  e fazermo-nos pequenos, reconhecer que erramos. Perdoarmos ou liberarmos perdão não é termos “amnésia” sobre o ocorrido, mas sim disponibilizarmo-nos a restabelecer o relacionamento abalado.
Do remorso ao perdão há uma pequena distância, mas o espaço é grande o bastante para residir o orgulho. Sentimento este que nos tentará convencer de que o ato de se desculpar ou reconhecer seu erro é atitude dos fracos.

O orgulho mata pessoas e sentimentos

Por outro lado, infelizmente, há pessoas que não aceitam nossas desculpas. Preferem romper com os laços afetivos em vez de crescer e amadurecer por meio dos exercícios apresentados pela vida. Insistem em manter a irredutibilidade e a prepotência que pensam possuir, em vez de dar o passo que romperá com as cadeias que as prendem. Talvez, querendo cumprir a lei do “olho por olho, dente por dente”, esperam por um momento de revanche. Enquanto isso, desperdiçam tempo e amargam seus dias remoendo o que já está resolvido para aquele que se dispôs a se desculpar.
A vida é muito curta para gastarmos o precioso tempo com comportamentos que não trazem a sustentabilidade de nossas convivências. Pedir ou conceder perdão não nos exige mais do que podemos aguentar. Sabemos de pessoas que gastam muito tempo buscando motivos para justificar suas infelizes atitudes, fazendo-se de injustiçadas, em vez de adotar gestos de humildade e agir de maneira diferente. Na verdade, elas são vítimas do orgulho, que mata pessoas e sentimentos.

Pedir perdão é o melhor caminho

Mais importante do que lembrar que não devemos desculpar seria fazer uso da faculdade de reflexão e reconhecer que ninguém está acima dos lapsos e erros, pois aquele que errou, hoje, poderá ser você amanhã.
Não percamos tempo monopolizando picuinhas, ressentimentos nem retendo perdão. Se uma situação especial nos faz refletir, levando-nos ao ato da reconciliação, peçamos ou demos o perdão, e continuemos a viver com a experiência adquirida.
Situações mal resolvidas afetam outras áreas de nossa vida. Talvez, por isso, existam ainda alguns problemas não equacionados em nossa vida, pois estes são reflexos dos fragmentos, dos elos que deixamos se perder ao longo do caminho.

Autor: Dado Moura