31/01/2012

Uma amiga chamada Constância (I)


Nosso mundo é marcado por um constante movimento de “mudar de ideia”, optar por novos horizontes. Por vezes, nos vemos diante de circunstâncias que nos fazem pensar se vale a pena levar adiante um trabalho difícil, uma situação desconforme com nossa vontade, ou ao menos desconforme com nossas expectativas. Por vezes não somos nós a buscar tais situações, mas elas nos alcançam e se prendem a nós em nosso dia a dia.

Sempre diante delas devemos dar uma resposta: ir adiante ou mudar de rota. Mudar de ideia, abandonar projetos falidos, trocar de rota por perceber que se está num caminho de demasiado risco ou mesmo equivocado, é uma atitude sempre positiva; e quando isso é fruto de discernimento, passa a ser necessário. Permanecer no caminho errado é prolongar a tristeza ou a possibilidade de frustração. E na verdade não fomos feitos para este tipo de vida. No entanto, a mudança de idéia pode ser devida a outros fatores que envolvem uma fraca capacidade de sonhar e projetar-se diante de um ideal, ou mesmo a ausência do proprio ideal. Uma vida sem ideal é como uma viagem sem rota, por mais que se ande, que seja uma viagem maravilhosa, nunca se chega ao ponto de destino e isso simplesmente porque ele é inexistente. Um bom ideal, um forte motivo para viver e até mesmo para dedicar cada esforço é sempre louvável, mas o ideal não se realiza sem a constância.

Por outro lado a constância só pode ocorrer onde existe o ideal. É a constância que conduz um ideal à sua realização, inclusive à plenitude de vida. Não existe constância onde não existe ideal. Todo homem deve ter um ideal de vida, deve escolhê-lo e buscar realizá-lo de acordo com o bem, não só como fim, mas também como meio.. Como virtude humana, a constância é acessível a todos. Não é simplesmente um dom do alto, mas algo que emerge de dentro da pessoa; e como todo talento, pode e deve ser cultivada e desenvolvida. Para entender claramente a constância, pensemos numa viagem para um local muito belo e desejado há muito tempo; e no dia da viagem está chovendo na estrada, e os vidros do carro embaçam.

O que fazer: Desistir? Mudar de rumo? Aguardar? Continuar? Tudo exige discernimento, é claro. Se ainda é possível ir adiante sem grandes riscos e possui habilidade suficiente para isso, o motorista deve decidir-se pela continuidade da viagem, ainda que em baixa velocidade, devido às situações adversas. Deve ir com muita cautela, deve respeitar o desafio; até mesmo parar e esperar a chuva passar – se for o caso –, mas desistir do ideal apenas por causa de uma chuva, que pode ser passageira, seria perder muito e as vezes sem chance de retomar mais tarde. Todo homem busca a plenitude de seu ser. Isso é uma grande obra! E como toda grande obra, não é fruto de apenas entusiasmo. Todo caminho comporta obstáculos, e para vencê-los, não basta ter força e inteligência, ou mesmo audácia e destreza. Tudo isso sim, mas, acima de tudo, constância.

Tem um provérbio que diz que “a inteligência natural pode ser dada a qualquer um, mas só é inteligente de verdade quem faz uso dela”. No dia a dia vemos que os frutos mais doces de nossa vida não são aqueles conquistados apenas por nossos talentos, mas pela constância que não nos deixou desistir de tais talentos diante dos obstáculos. Se diz ainda que “sorte é quando a preparação encontra a oportunidade” . Para muitas coisas em nossa vida teremos apenas uma oportunidade. Por isso, é bom ser constante, para se preparar bem e não perdê-la. Não se constrói nada sem constância. Nossos ideais embebidos na constância adquirem uma força extraordinaria.

Para ser feliz é preciso que nos esforcemos sempre, sem desanimar diante das situações desfavoráveis, mesmo sem motivação sensível, ainda se as pontes desabarem diante de nós, mesmo na cotidianidade dos acontecimentos, ou quando os obstáculos nos pareçam insuperáveis; sabendo sempre que nosso ideal maior é Cristo, em Quem tudo que é bom encontra o seu modelo, inclusive a constância. Afinal A alma só se alimenta daquilo que lhe traz alegria, nos lembra Santo Agostinho.

Deus os abençoe
Padre Xavier-CN

OBS: O Padre está preparando a continuação deste texto…

30/01/2012

Os estragos da TV brasileira

Quem patrocina a baixaria é contra a cidadania

Em duas oportunidades (13/01/93 e 27/01/93) – antes de surgir as TVs católicas - o falecido Cardeal, e ex-Primaz do Brasil, Dom Lucas Moreira Neves publicou, no JORNAL DO BRASIL, dois famosos artigos sobre a televisão brasileira. Foram publicados também na Revista “Pergunte e Responderemos” (n. 375, 1993, pg. 357ss)”. No primeiro, cujo título é J'ACCUSE! (Eu acuso), o prelado afirmava, entre outras coisas:

Eu acuso a TV brasileira pelos seus muitos delitos. Acuso-a de atentar contra o que há de mais sagrado, como seja, a vida...”. “Acuso-a de disseminar, em programas variados, ideias, crenças, práticas e ritos ligados a cultos os mais estranhos. Ela se torna, deste modo, veículo para a difusão da magia, inclusive magia negra, satanismo, rituais nocivos ao equilíbrio psíquico.”

“Acuso a TV brasileira de destilar em sua programação e instalar nos telespectadores, inclusive jovens e adolescentes, uma concepção totalmente aética da vida: triunfo da esperteza, do furto, do ganho fácil, do estelionato. Neste sentido merece uma análise à parte as telenovelas brasileiras sob o ponto de vista psicossocial, moral, religioso [...]
“Qual foi a novela que propôs ideais nobres de serviço ao próximo e de construção de uma comunidade melhor? Em lugar disso, as telenovelas oferecem à população empobrecida, como modelo e ideal, as aventuras de uma burguesia em decomposição, mas de algum modo atraente”.
“Acuso, enfim, a TV brasileira de instigar à violência: A TV brasileira terá de procurar dentro de si as causas da violência que ela desencadeou e de que foi vítima [...]”.

No segundo artigo (27/01/93), sob o título de “Resistir, Quem Há de? o Cardeal pede uma mobilização da família cristã contra isso: “Opino que a Família deve estar na linha de frente de resistência: os pais, os filhos, os parentes, os agregados - toda a constelação familiar. Ela é a primeira vítima, torpemente agredida dentro da própria casa; deve ser também a primeira a resistir. É ela quem dá IBOPE, deve ser também quem o negue, à custa de fazer greve ou jejum de TV. Cabe, pois, às famílias, 'formar a consciência crítica' de todos os seus membros frente à televisão; velar sobre as crianças e os adolescentes com relação a certos programas; mandar cartas de protesto aos donos de televisão; chamar a atenção dos anunciantes, declarando a decisão de não comprar produtos que financiam programas imorais ou que servem de peças publicitárias ofensivas ao pudor, exigir programas sadios e sabotar os mórbidos para que não se diga que o público quer uma TV licenciosa, violenta e deseducativa”.

É preciso meditar profundamente nesta grave acusação de Dom Lucas Moreira Neves. Os pais e educadores, sobretudo os cristãos, não podem deixar as crianças e jovens à mercê de uma televisão baixa, imoral, deseducativa, amedrontadora, desleal. A TV tem sido a grande promotora da destruição dos valores morais e da família.

O próprio Walter Clark, falecido em 1997, fundador e ex-diretor da TV GLOBO, também deu o seu testemunho contra essa situação, por intermédio do jornal ESTADO DE MINAS (07/01/93, pg 13), afirmando, entre outras coisas, que:
“A TV brasileira está vivendo um momento autofágico. Lamento ter contribuído, de alguma forma, para que ela chegasse aonde chegou”. “A emissora está nivelando por baixo: existem traições, incestos, impulsos sexuais incontidos, cobiça, ódio, tudo isso existe, mas não é só isso”. “A sociedade, que já está violenta, acaba tendo no seu registro mais forte de comunicação, que é a TV, só violência”.

Já faz quase vinte anos que esses alertas foram feitos, mas parece que pouco mudou. É verdade que, graças a Deus, surgiram as TVs católicas, que fazem uma “pregação sistemática de valores”, se contrapondo a outras que fazem o contrário: “uma pregação sistemática de antivalores”.

A televisão brasileira, infelizmente, se tornou uma das piores do mundo no que se refere aos valores morais, alienação do povo e sua deseducação. O que temos visto nos famosos “reality shows”, novelas e outros programas de auditório? Algo deprimente. Jovens e artistas que expõem suas intimidades ao público em busca de fama e dinheiro fácil, dando aos milhões de jovens mau exemplo de vida. A única coisa nobre nesses programas é o horário; são, na verdade, um fomento à mais mesquinha fofoca em horário nobre. Explora-se, de modo sutil, com um marketing refinado, a miséria das pessoas, seus problemas sentimentais, afetivos, morais, espirituais, num desrespeito profundo à dignidade do ser humano. Ele ali é usado e enganado para dar IBOPE e lucro, nada mais.

Esses programas e outros, repito, em horários nobres, aos quais crianças e jovens assistem, levam-nos ao esquecimento de nós mesmos, à alienação, à futilidade e imoralidade. São cenas contínuas de incitamento sexual, masturbação, convite à fornicação e outras tristezas. Não há cultura, não há formação, não há boa informação; é apenas apelo aos vícios: exibicionismo, soberba, cultura do prazer, sexismo, pornografia, homossexualidade, competição baixa, infidelidade conjugal, preguiça, ociosidade, intrigas, “strip-tease” e, disputas desumanas que levam as pessoas à exaustão física e mental. Tudo em busca de sucesso e dinheiro fácil. Tudo contra o que nos ensina Jesus Cristo. O importante é se tornar uma “celebridade nacional” com direito a outros sucessos. Mas com base em que conteúdo?
A consequência de tudo isso é que vai-se aumentando o número de adolescentes grávidas, abortos, estupros, infidelidades conjugais, homossexualidade, casais separados, jovens abandonados vivendo no crime, na droga e na bebida...
Por outro lado o povo é massificado. Explora-se maldosamente o mórbido gosto natural pela fofoca e “bisbilhotagem” da vida alheia, fazendo da massa popular como que um rebanho que não pensa e não critica. É uma alienação e desserviço à população. Explora-se comercialmente, “inteligentemente”, a falta de cultura de povo oriundo de uma escola fraca; aumenta-se, como disse alguém, o seu “emburramento”.

Ora, a lei diz que televisão – cuja concessão é do Estado – tem a missão de educar, formar, informar, dar cultura e educação; é isso que temos visto? Não, não e não. Temos visto uma TV que destrói a família e seus valores sagrados. Com um faturamento financeiro enorme, vende-se alienação numa enorme vitrine de propaganda patrocinada por ricas empresas. Uma campanha na internet contra tudo isso chegou a anunciar “Quem patrocina a baixaria é contra a cidadania”; é contra o povo; então, como disse o Cardeal D. Lucas é preciso o boicote dos cidadãos, especialmente dos cristãos, a quem fomenta a imoralidade.
Lutar contra tudo isso não é moralismo, mas defesa dos valores morais e da família, coluna da sociedade. O povo brasileiro tem sido ofendido e chocado com as barbaridades apresentadas em novelas, com cenas chocantes, palavras chulas e obscenas, que não se pode escrever aqui. Tenta-se de maneira sutil e maliciosa passar isso ao povo como “se tudo fosse normal e lícito”, como se o sexo fosse apenas atos de genitalidade, apenas prazer sem uma visão moral e um compromisso com a vida e com o outro, como se fossemos irracionais.

O Congresso Teológico Pastoral de Valencia, na Espanha, no V Encontro do Papa com as famílias disse que: “a família vive uma crise sem precedentes na história”, cujas raízes se encontram na “pressão ideológica” exercida pela “mentalidade consumista” e pela ação de “um laicismo de raiz niilista e relativista”.
É preciso reagir contra esse estado de coisas. Não podemos ficar calados e inertes diante desta cultura niilista e sem Deus que quer tudo destruir. Se não nos mobilizarmos contra isso estaremos sendo coniventes com a destruição da família e da sociedade, diante de Deus e dos homens. O que queremos para os nossos filhos e netos?

Foto Felipe Aquino
felipeaquino@cancaonova.com

27/01/2012

Vinde e vede!

É a partir daí que começa um processo de vivência cristã

Toda opção na vida é fruto de alguma motivação concreta. O nosso ser é atingido de forma a nos convencer da importância de lutar por ela. É uma adequação existente entre o objeto a ser atingido e a razão intelectual que vai ao seu encontro. Na busca de Jesus Cristo e no seguimento de seu ideal, Ele mesmo diz: “Vinde e vede”. A opção é nossa, mas convencidos da fidelidade e autenticidade de quem faz o convite. “Vinde” supõe ida para identificar a realidade de quem faz o convite.

Estamos na cultura do ver. A aparência fala mais alto que as palavras. É o velho ditado: “As palavras comovem, mas são os exemplos que convencem”. O “vede” de Jesus significa descobrir n'Ele as motivações concretas para uma opção de vida.

O homem e a mulher modernos, com todas as influências da atualidade, são convidados a “vir” até Jesus para “ver”, permanecer e morar com Ele. É a partir daí que começa um processo dinâmico de vivência e compromisso cristãos.

A vida não pode ser marcada por esterilidade diante de Deus e da comunidade. Aos poucos, cada pessoa deve descobrir sua missão no mundo e na sociedade. Saber encontrar a voz da consciência e a de Deus nos convocando para a missão.

O mistério da vida está envolvido pela sabedoria divina, que deve ser encontrada, porque Ela se deixa encontrar. Basta ir e ver em Jesus Cristo a autêntica revelação de Deus Pai. É a sabedoria do Novo Testamento, que supera toda a sabedoria do Antigo Testamento.

Jesus convida para o “vir e ver”. “Vir” significa o passo da fé, e “ver” é ter a visão da fé. Quem faz esse itinerário acaba sendo convidado e iniciado por Cristo. Isso passa a contagiar os outros na fé, porque acontece uma partilha de descobertas.

Olhar para uma cultura de libertinagem significa fazer discernimento. As escolhas não são fáceis. São Paulo faz uma importante indicação: “Tudo é permitido, mas nem tudo faz bem” (I Cor 6,12). Não podemos ser escravos das coisas más.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Bispo de São José do Rio Preto

26/01/2012

Santos de carne e osso

O verdadeiro santo foge das condecorações e elogios

Há muitos santos modernos agindo em nome de Deus e vivendo uma caridade séria, não fingida, sem caricatura e sem teatralidade. Não parecem santos, mas o são. Guardaram-se para seu Criador, aceitam Jesus, vivem para sua família, para o grande amor de suas vidas, são fiéis à verdade, aos amigos, à palavra dada, e ao seu batismo.

Não têm nem cara nem trejeitos de santos, mas estabeleceram um projeto de vida e o constroem tijolo por tijolo, ato por ato, coerência por coerência. Muitas pessoas nem percebem que eles são santos, porque são gente de carne e osso como nós. Mas uma análise do que fazem pelos outros, da sua humildade, da sua fé e da sua serenidade aponta para mais um dos santos que Jesus formou.

Diferente é o santo fingido. Ele decidiu que gostaria de ser visto como santo pela projeção social, como no tempo de Jeremias, 650 anos antes de Jesus e no tempo do próprio Jesus, quando posar de santo e de profeta dava lucro e angariava louvores e primeiros lugares. Então muita gente fingia jejuar e orar ostentado uma santidade que não tinha. E havia os que garantiam que Deus falava com eles e que eles sabiam levar a Deus [aos demais]. Ganhavam seu sustento com sua cara de santos. Isaías, Jeremias, Jesus e os apóstolos alertaram sobre eles.

Mas como muita gente adora uma novela e não dispensa um teatro, sempre haverá quem despreze o santo sereno que não dá espetáculo e corra atrás do que grita, chora, esperneia, garante visões, revelações quentíssimas, curas e milagres em local dia e hora marcados. Trocam a verdade, a simplicidade e a honestidade do santo que não faz marketing pelo "pseudossanto" que dá espetáculo, cura dramaticamente, entrevista o demônio ao microfone e transforma a fé em espetáculo.

Até que ponto isso é válido? Que santidade é essa em que não só a mão esquerda sabe o que faz a direita como também câmeras e microfones veiculam aquilo para todo o mundo? O mesmo Jesus que disse para anunciar a verdade por sobre os telhados e que nossa luz brilhasse, teve o cuidado de mandar que orássemos de portas trancadas e que não fizéssemos alarde da nossa caridade e dos nossos carismas. Ele mesmo pedia que os beneficiados por Ele não espalhassem a notícia.

Jesus, que é santo de verdade e nunca fingia poder ou santidade, e que nos pediu que seguíssemos Seu exemplo a ponto de, elogiados e incensados, dizermos que não fizemos mais do que nossa obrigação e que não buscássemos os primeiros lugares, este mesmo Jesus concordaria com o que se vê na mídia religiosa de hoje?

Uma coisa é ser santo sem caricatura, sem cabeça torta, sem chorar orando e dando murros no chão, sem dramaticidade televisiva, com atos de justiça que só Deus vê porque aquele cristão não divulga o bem que faz. Outra coisa é buscar os holofotes e desabridamente, sem nenhum escrúpulo, chamar a atenção para si mesmo, para sua obra e garantir que Deus quer que ele ou ela apareçam para Sua maior honra e glória. Pior ainda: ganhar dinheiro grosso em cima dessa exibição de santidade. Cristo condenou e criticou os fariseus que assim agiam.

Santo que é santo não finge que o é. É discreto. Faz o que deve fazer e foge do incenso, das condecorações e dos elogios. Há santos de verdade ao nosso redor e há caricaturas de santos vendendo e ostentando uma fé que aponta mais para si mesmos do que para Jesus, cujo nome usam com estardalhaço.

Você que crê na Bíblia terá que escolher a quem seguir. Aos que dão a entender que são os novos santos ou os que nada dizem; simplesmente vivem a Palavra e a praticam.

Se você é dos que dizem que ainda não estão convertidos, mas que estão se convertendo, merecerá mais crédito do que os que garantem que Jesus os salvou e que eles sabem o caminho. Em termos de fé quem segue procurando está mais perto do que aquele que diz ter achado e agora aponta para si mesmo como exemplo do que Deus faz por um pecador. Eu prefiro o santo que aponta para os outros convertidos e santos e não fala nada sobre si mesmo, exceto que precisa de preces para ser mais de Cristo.

Desconfiemos de santos que gostam de medalhas, condecorações, incensos e elogios. Apostemos em que só os aceita por obediência.

Pe. José Fernandes de Oliveira - Pe. Zezinho, scj

25/01/2012

A salvação se decide na prática

A salvação se decide na prática

No livro de Isaías, do Antigo Testamento, se anuncia a reunião de todas as nações, línguas e raças num só povo eleito.
No Novo Testamento, Jesus diz a Seus conterrâneos que virão estrangeiros do Norte e do Sul, do Oriente e Ocidente, para sentar à mesa do Reino de Deus. Esta universalidade da salvação de Deus nos deixa ainda sem saber nada sobre o número dos que se salvarão.

Basta-nos saber que Deus chama a todos, que a porta que conduz ao Reino é estreita e pode fechar a qualquer momento. O único que importa é a conversão ao Evangelho. Tudo o mais é simples curiosidade que nos distrai perigosamente.

O Evangelho é salvação para os que o escutam responsavelmente, sejam eles ou não descendentes de Abraão ou católicos desde seu nascimento. Escutar responsavelmente o Evangelho é vivê-lo e praticá-lo na vida diária. E isso não é nada fácil. Por isso Jesus diz que a porta é estreita e que apenas os que se esforçam entrarão por ela no Reino de Deus. Não basta escutar sermões ou ir à Santa Missa todos os domingos. Não são as práticas piedosas que nos salvarão.

Tudo isso tem seu valor, mas só quando nos ajuda e anima a viver nossa fé na vida diária: em nossa vida pessoal e familiar, nossa vida social e profissional, nossa vida política...

No último dia, o Senhor reconhecerá apenas aqueles que agora e aqui O reconhecem nos homens. Reconhecer Jesus nos homens é reconhecer a dignidade de cada ser humano, respeitar seus direitos, ter em conta suas necessidades e, principalmente, solidarizar-se com os pobres, os marginalizados, os oprimidos. Qualquer coisa que façamos a um desses, ao próprio Senhor o estamos fazendo.

“Há últimos que serão primeiros e primeiros que serão últimos”. Chegará o grande Dia do Juízo e, então, a surpresa virá implacavelmente sobre muitos que acreditavam ser os verdadeiros cristãos. E esses, que pensavam ser os primeiros, dirão:
“Senhor, abra-nos”. E o Senhor lhes responderá:
“Não sei quem sois”. E eles começarão a dizer:
“Havemos comido teu pão e bebido teu sangue,
teu Evangelho há sido predicado em nossas igrejas.”

Mas a lembrança de todas essas práticas religiosas não servirá de nada - se não for acompanhada da prova verdadeiramente decisiva no juízo: o amor aos demais, principalmente aos necessitados. Chegará o grande Dia do Juízo e, então, virá felizmente a surpresa para muitos homens do Oriente e Ocidente, do Norte e do Sul. São os que praticaram no mundo a mensagem cristã do amor. Por isso, o Senhor lhes abrirá a porta, os sentará à Sua mesa e lhes dirá: “Venham, benditos de meu Pai, herdem o Reino. Porque tive fome, e me deram de comer; tive sede, e me deram de beber; fui peregrino, e me acolheram...”

Os primeiros para Deus são com frequência os últimos para os homens, porque Deus não julga segundo as aparências, mas pelo que vê no coração.

Há um cristianismo oficial que é bom quando expressa autenticamente em palavras e obras as atitudes da fé, da esperança e do amor - mas que é vã hipocrisia quando não é assim. Por outro lado, há outro Cristianismo sem nome, anônimo, que não se expressa em ritos e palavras, mas que realiza na vida a mensagem de Cristo.

A verdade cristã é eminentemente prática. Consiste na conversão do homem para uma ordem nova, na qual habita a justiça, a paz, a fraternidade e o amor. Os homens que trabalham por esses valores se salvarão e ocuparão os primeiros lugares. Queridos irmãos, esforcemo-nos para que Deus nos encontre também entre eles e nos deixe entrar em Seu Reino celestial.

Padre Nicolás Schwizer
Movimento apostólico Shoenstatt

24/01/2012

"Sempre tive vontade de ter uma foto de família"

"Sua casa será restaurada". Esta é a inscrição logo acima da porta de entrada da casa de um dos módulos do Aprofundamento Revolução Jesus. Ali, há toda uma preparação para que os jovens façam uma experiência 'nova' de família.

“Saí pelo mundo para encontrar algo que me completasse," testemunha participante
Foto: Maria Andréa/Cancaonova.com

:.Ouça este testemunho na íntegra

O jovem Renato Salvador, da cidade de Montes Claros (MG), nos relatou, com riquezas de detalhes, a experiência vivida: "Cheguei aqui sem rumo, eu estava detonado. Quando fui em direção à casa, fui percebendo que algo já ia acontecendo em mim. De cara vi um bilhete que dizia: 'Filho, que saudade estou de você! Vem jogar bola comigo?'. Ali eu desabei, pois eu nunca fiz essa experiência de verdade, nunca joguei uma partida de futebol com meu pai. Mas, hoje eu joguei esse futebol com ele, fiz essa experiência no coração".

Já faz sete meses que Renato está longe de casa e não vê seus pais: "Saí pelo mundo para encontrar algo que me completasse, saí para buscar uma vida bem- sucedida, porém, hoje, vi que a distância é uma escola, ela me ensina a amar mais. Aqui percebi que a saudade também cura o coração do desamor”.

"Sempre tive vontade de ter uma foto de família."
Foto: Maria Andréa/Cancaonova.com

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Hoje, com 25 anos de idade, o jovem mineiro tocou em uma realidade vivida por muitos outros que participaram deste módulo: "Eu nunca disse aos meus pais o quanto os amo, mas reconheço que sem eles a vida não tem sentido. Meu pai tem problema de saúde e talvez não compreenda o amor que eu tenho por ele, mas hoje sei que será Deus quem terá de mostrar isso a ele, embora eu saia daqui com o propósito de ir até eles e expressar claramente o meu amor.”

Questionado sobre os momentos mais fortes vividos na casa, sua resposta foi clara e objetiva: "Um deles foi o abraço de pai; nunca vivi isso, foi muito forte para mim, porque eu abracei o meu pai de verdade, foi concreto.”

Na casa, muitos objetos são deixados pela equipe, que está à frente do aprofundamento, como espelho, panelas, flores, frases. A respeito desses objetos, Renato nos disse: "Deparei-me com um álbum de fotografia vazio, sempre foi vontade minha ter uma foto de família, mas isso nunca aconteceu. É cada um para um lado. Saio daqui com esse objetivo, de unir a minha família, de reunir meus pais e irmãos.”

Foto: Maria Andréa/Cancaonova.com
O momento no "módulo casa" foi encerrado com uma oração conduzida pela equipe, quando uma cruz foi apresentada aos jovens para que eles tocassem no amor pleno e incondicional. Neste momento, Renato fez seu propósito: “Saio renovado, totalmente diferente. Não era nem para eu estar aqui hoje, mas Jesus me trouxe e me renovou, saio tomando posse da graça de Deus para minha vida".

Fonte: Canção Nova

23/01/2012

Mil razões para perdoar sempre

Muitas vezes, perdoamos querendo algo em troca

O perdão afeta a santidade e o nosso corpo. Sabemos que São Pedro perguntou a Jesus até quantas vezes precisamos perdoar, e o Senhor respondeu: "Não só 7 vezes 7, mas 70 vezes 7". Em uma casa uma família precisa perdoar um usuário de drogas em um dia 70 vezes 7.

O perdão não nasce do nosso sentimento e, sim, da nossa decisão, é uma decisão de amor; é uma graça que Deus nos dá. Algumas vezes, perdoamos querendo algo em troca, ou falamos: "Perdoei tal pessoa, mas ela não muda"; no entanto, o perdão é nosso. Não podemos esperar mudança nem reconhecimento, o perdão precisa ter gratuidade.

Há pessoas que se decidem a não perdoar, e se você livremente não toma a decisão de perdão, você não entrará no rio da misericórdia. Já pensou se Jesus falasse assim com você – "Veio confessar de novo o mesmo pecado? Virou brincadeira...". Mas isso nunca vai acontecer porque Deus vai nos perdoar sempre.

Se nós não perdoamos uma pessoa gratuitamente mesmo que ela não venha a mudar, estamos fazendo a ela um mal espiritual terrível, estamos a escravizando.

Existem pessoas que resolvem pegar o passado e enterrá-lo. Preste atenção: você não é o senhor do tempo, o seu passado não é para ser enterrado, mas sim, redimido no Sangue de Jesus Cristo. Descave o seu passado, o que você precisa é perdoar, é colocá-lo aos pés da cruz para que ele seja redimido.

Primeiro caso equivocado: perdoar esperando recompensa; segundo caso: é enterrar passado. O terceiro passo: não vou perdoar porque essa pessoa me fez esse mal. Por exemplo: "Como vou perdoar uma pessoa que matou o meu pai?" Eu lhe respondo: do mesmo jeito: com a graça de Deus. Você não tem nenhum motivo para não perdoar. O quarto caso é: "Perdoei. Agora chega! Já faz 60 anos que perdoei esse infeliz e ele faz a mesma coisa". Você só será santo se perdoar até o fim.

São João da Cruz pediu uma graça a Deus de não ser amado por ninguém. Quando ele percebeu que estava para morrer, ele buscou o convento no qual ninguém gostava dele. E disse que queria morrer naquele local, porque queria morrer perdoando.

Quem tem a coragem de querer morrer na casa da pessoa que mais lhe fez mal? Meus queridos, nós amamos muito e não queremos sofrer, não queremos a frustração. Achamos que ser feliz é não ter problemas, achamos que ser feliz é estar tudo bem, mas não é isso que diz o Evangelho. Como você quer seguir Jesus, que passa pela cruz, e não quer sofrer? Ser feliz é amar a Deus, é viver como Jesus a radicalidade do Evangelho.

Santa Terezinha, certa vez, levou uma sobrinha para o convento para cuidar da menina, daí começou a haver um boato na cidade de que ela havia tido uma filha antes de ir para lá [convento], até que uma irmã lhe informou sobre o comentário que ocorria na cidade, e a santa francesa respondeu: "Já fiz tantas coisas erradas que eles não souberam. Deixe-os falar para que essa fique por conta do que eles não sabem".

O quinto caso é: "Não vou perdoar porque ele fez de propósito", mas isso não faz diferença para o perdão. A graça do perdão jorra de Jesus Cristo. São João da Cruz diz que tanto faz se um passarinho está amarrado por um barbante ou por uma corrente, pois das duas formas ele estará amarrado. Assim é o perdão: não importa se o que você tem quer perdoar é algo grande ou pequeno.

Nenhum pecado atinge só a alma, atinge nosso corpo também. Nosso corpo foi feito para expressar a santidade de Deus, o nosso corpo expressa a nossa história de vida.

Deus quer nos "revirginizar", isto é, quer nos santificar na nossa alma e no nosso corpo.

Emmir Nogueira
Cofundadora da Comunidade Shalom

20/01/2012

A Igreja é minha mãe

Nós pulamos no colo dessa mãe e beijamos a sua face! Nós nos lançamos nos braços dessa mãe envelhecida. Mas que beleza! No seu envelhecimento, aparecem as cicatrizes da sua longa fidelidade. Ela ostenta hoje cicatrizes por todo o corpo. Cicatrizes fundas e, ao mesmo tempo, gloriosas; consequência de todo o sofrimento para se manter fiel durante todo esse tempo. Amemos com ternura essa nossa mãe. Beijemos as cicatrizes da nossa Igreja!

"Essa é a Igreja que o Senhor virá buscar, e não outra!"
Foto: Arquivo CN

Tolo é aquele que, ao ver as cicatrizes de sua mãe, a despreza e a abandona para fundar “igrejinhas” que vivem à parte. Este é um filho desnaturado, que não entendeu nada a respeito do sofrimento de sua mãe. A Igreja não consegue deixar de amá-lo porque é filho. Ele procede como filho desnaturado... mas a Igreja o ama. Ele também faz parte da nossa família, essa Igreja que o Senhor está preparando e à qual se refere a profecia de Miquéias:

“E tu, torre do Rebanho, colina da filha de Sião: voltará a ti Tua Soberania de outrora, a realeza sobre a casa de Israel”(Mq 4,8).

Essa é a Igreja que o Senhor virá buscar, e não outra! Os nossos irmãos separados haverão de voltar. Deus vai dar um tempo a eles. Não somos nós que vamos ter de buscá-los. O Senhor os trará de volta. Creia! Prepare-se para recebê-los. Os que são realmente de Jesus, no meio protestante, “na hora do Senhor”, precisarão vir correndo para a única e verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem marcou essa hora foi o Senhor.

Por que falei tudo isso? Porque muitos deles têm feito uma obra de proselitismo, atraindo católicos desprevenidos e despreparados para levá-los para a sua “igreja”, como se a Igreja verdadeira estivesse com eles. Eles nos têm desclassificado, dizendo até mesmo que não somos “salvos”, que somos idólatras. Que estão fazendo o favor de nos salvar da Igreja Católica.

Sabemos que, graças a Deus, não é nada isso. Não precisamos fazer a obra de rapto que eles estão fazendo. Não precisamos fazer proselitismo! Precisamos cuidar das ovelhas que estão na Igreja Católica. Este é o nosso trabalho, levar o batismo no Espírito Santo a todos os nossos irmãos dentro da Igreja Católica.

Há um trabalho imenso a ser feito! Jesus mesmo disse que Ele veio para as ovelhas perdidas da casa de Israel. Quando chegou aquela mulher siro-fenícia pedindo-lhe que salvasse sua filha, Ele afirmou: “Fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24).

Jesus Nazareno ficou encantado com a humildade e confiança daquela mulher pagã e curou a sua filha. Mas permaneceu firme no “campo de missão” ao qual o Pai havia confiado a Ele: “Fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”.

É isso que Ele diz a nós, Igreja Católica: “Cuidem das minhas ovelhas, das ovelhas perdidas da ‘Casa de Israel’. As muitas ovelhas da MINHA IGREJA”.

Temos muitas ovelhas perdidas dentro da Igreja Católica. É preciso resgatá-las. Há muito trabalho a ser feito. Precisamos nos empenhar. Não precisamos nos preocupar em arrebanhar os protestantes. O Senhor mesmo os trará de volta, na hora certa. Na hora do Senhor.

Quando chegar a hora do Senhor, os verdadeiros evangélicos, os que são de Jesus, voltarão correndo para a única Igreja, Una, Santa, Católica, Apostólica. Creia! Espere por eles!

Trecho do Livro: "Reinflama o Carisma",
Monsenhor Jonas Abib
Comunidade Canção Nova

19/01/2012

Amar não é fácil

Não se ama por ser fácil, ama-se porque é preciso!

Se amar fosse fácil, não haveria tanta gente amando mal, nem tanta gente mal-amada.
Se amar fosse fácil, não haveria tanta fome, nem tantas guerras, nem gente sem sobrenome.
Se amar fosse fácil, não haveria crianças nas ruas sem ter ninguém, nem haveria orfanatos, porque as famílias serenas adotariam mais filhos, nem filhos mal concebidos, nem esposas mal-amadas, nem mixês, nem prostitutas. E nunca ninguém negaria o que jurou num altar, nem haveria divórcio, nem desquite, jamais...

Se amar fosse tão fácil, não haveria assaltantes e as mulheres gestantes não tirariam seu feto, nem haveria assassinos, nem preços exorbitantes, nem os que ganham demais, nem os que ganham de menos.

Se amar fosse tão fácil nem soldados haveria, pois ninguém agrediria, no máximo ajudariam no combate ao cão feroz. Mas o amor é sentimento que depende de um 'eu quero', seguido de um 'eu espero'; e a vontade é rebelde, o homem, um egoísta que maximiza seu 'eu' por isso, o amor é difícil.

Jesus Cristo não brincava quando nos mandou amar. E quando morreu, amando, deu a suprema lição. Não se ama por ser fácil, ama-se porque é preciso!

Pe. José Fernandes de Oliveira - Pe. Zezinho, scj

18/01/2012

Nossos milagres de cada dia

De fé, de amor, de transformação, de vida cristã.

Existe uma ambiguidade que caracteriza aos sinais e milagres de Jesus Cristo. Por um lado, os Evangelhos estão cheios de milagres. O caminho de Jesus está marcado por acontecimentos prodigiosos: os cegos recobram a vista, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os mortos ressuscitam. Por outro lado, Cristo é reticente com os milagres. Multiplica os sinais, mas não pretende apresentar-se como taumaturgo. Vem para trazer a salvação, não para fazer milagres. Evita todo sensacionalismo, se nega decididamente ao espetacular.

Se miramos atentamente o Evangelho, podemos dizer que existem duas coisas que são capazes de Lhe arrancar milagres: a fé dos que pedem e a miséria dos homens.

1. A fé de quem pede. Um rosto que implora com fé é um espetáculo diante do qual Cristo não pode resistir. É Seu ponto "débil". Deixa escapar expressões de admiração: “Mulher, que grande é tua fé!” E não pode evitar realizar o milagre: “Faça-se segundo teus desejos...”

2. A miséria humana. Quando Jesus se encontra pelo caminho com a miséria, sente-se quase obrigado a regalar o milagre. Em muitos casos, nem sequer é necessário que formulem um pedido explícito. Basta a presença da dor, como por exemplo, as lágrimas de uma mãe que acompanha o sepulcro de seu único filho. E Cristo responde imediatamente. Não pode ver como os homens sofrem. Tratando-se de nós, há cristãos que querem ver milagres a todo custo.

Como se sua fé estivesse pendente, mais que da Palavra de Deus, dos milagres. Sua vida se desenvolve sob o signo do extraordinário, do excepcional, às vezes, até do extravagante. Não compreenderam que a fé é o que provoca o milagre. E não o contrário. Alteraram o procedimento de Jesus. No Evangelho aparece com claridade que o Senhor ressalta a liberdade, deixa a porta aberta, sem obrigar ninguém a entrar, sem golpes espetaculares. Ele é vencido só pela fé dos homens.

Mas existe também uma postura contrária, também fora de sintonia. São cristãos que têm medo, que quase se envergonham do milagre. Pretendem impedir que Deus seja Deus. Gostariam de aconselhar-Lhe que não é oportuno, que é melhor, para evitar complicações, deixar em paz o campo das leis físicas. Como se Deus estivesse obrigado a pedir-lhes conselho antes de manifestar Sua onipotência.

Esquecem que os milagres são a expressão da liberdade de Deus. Nossos milagres. Por cima destas atitudes diante dos milagres e sinais de Deus, está a obrigação precisa para todos nós: Cristo nos deixou a recomendação de fazer milagres. É o “sinal” de nossa fé. Mais ainda, havemos de “converter-nos” em milagres: Milagres de coerência, de fidelidade, de misericórdia, de generosidade, de compreensão.

Uma vez mais esta “geração perversa pede um sinal”. E tem direito de esperá-lo de nós, os que nos chamamos cristãos. Que sinal podemos oferecer-lhes? Que milagre podemos apresentar-lhes? Uma resposta ao mundo que nos rodeia. Nosso caminho passa por um mundo que tem fome, fome de pão e fome de amor. Um mundo enfermo de desilusões. Um mundo cego pela violência. Um mundo assolado pelo egoísmo.

Não podemos passar por esse caminho limitando-nos a contar aos demais os milagres de Jesus. Não podemos contar com seus milagres. Havemos de contar com os nossos.

O que buscam os homens deste mundo são nossos milagres de cada dia: nossos milagres de fé, de amor, de transformação, de vida cristã.

Padre Nicolás Schwizer
Movimento apostólico Shoenstatt

17/01/2012

O inacabado que há em mim


Quem não se ama não sabe amar ninguém

Eu me experimento inacabado. Da obra, o rascunho. Do gesto, o que não termina. Sou como o rio em processo de vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo.

O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afeta com seu poder de vivência. Empurra-me para reações inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.

Por vezes o cansaço me faz querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o coração. É nessa hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos, previsíveis.

Mas quando me enxergo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil. Melhor mesmo é continuar na esperança de confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão. Eu sou inacabado. Preciso continuar.

Se a mim for concedido o direito de pausas repositoras, então já anuncio que eu continuo na vida. A trama de minha criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim.

Um dia sou multidão; no outro sou solidão. Não quero ser multidão todo dia. Num dia experimento o frescor da amizade; no outro a febre que me faz querer ser só. Eu sou assim. Sem culpas.

Quem sou eu? Eu, visto pelo outro, nem sempre sou eu mesmo... Quem sou eu? Eu vivo para saber. Interessante descoberta que passa o tempo todo pela experiência de ser e estar no mundo. Eu sou e me descubro ainda mais no que faço. Faço e me descubro ainda mais no que sou. Partes que se complementam.

O interessante é que a matriz de tudo é o "ser". É nele que a vida brota como fonte original. O ser confuso, precário, esboço imperfeito de uma perfeição querida, desejada, amada.

De vez em quando, eu me vejo no que os outros dizem e acham sobre mim. Uma manchete de jornal, um comentário na internet ou até mesmo um e-mail que chega com o poder de confidenciar impressões. É interessante. Tudo é mecanismo de descoberta. Para afirmar o que sou, mas também para confirmar o que não sou.

Há coisas que leio sobre mim que iluminam ainda mais as minhas opções, sobretudo quando dizem o absolutamente contrário do que sei sobre mim mesmo. Reduções simplistas, frases apressadas que são próprias dos dias em que vivemos.

O mundo e suas complexidades. As pessoas e suas necessidades de notícias, fatos novos, pessoas que se prestam a ocupar os espaços vazios, metáforas de almas que não buscam transcendências, mas que se aprisionam na imanência tortuosa do cotidiano. Tudo é vida a nos provocar reações.

Eu reajo. Fico feliz com o carinho que recebo, vozes ocultas que não publico, e faço das afrontas um ponto de recomeço. É neste equilíbrio que vou desvelando o que sou e o que ainda devo ser, pela força do aprimoramento.

Eu, visto pelo outro, nem sempre sou eu mesmo. Ou porque sou projetado melhor do que sou ou porque projetado pior. Não quero nenhum dos dois. Eu sei quem eu sou. Os outros me imaginam. Inevitável destino de ser humano, de estabelecer vínculos, cruzar olhares, estender as mãos, encurtar distâncias.

Somos vítimas, mas também vitimamos. Não estamos fora dos preconceitos do mundo. Costumamos habitar a indesejada guarita de onde vigiamos a vida. Protegidos, lançamos nossos olhos curiosos sobre os que se aproximam, sobre os que se destacam, e instintivamente preparamos reações, opiniões. O desafio é não apontar as armas, mas permitir que a aproximação nos permita uma visão aprimorada. No aparente inimigo pode estar um amigo em potencial. Regra simples, mas aprendizado duro.

Mas ninguém nos prometeu que seria fácil. Quem quiser fazer diferença na história da humanidade terá que ser purificado nesse processo. Sigamos juntos. Mesmo que não nos conheçamos. Sigamos, mas sem imaginar muito o que o outro é. A realidade ainda é base sólida do ser.

Eu tomo posse daquilo que sou. Quem não se ama não sabe amar ninguém. Ser pessoa é, antes de tudo, ter consciência: "Eu sei quem sou eu. Tenho diante de mim minhas dificuldades, mas eu me aceito!" Conversão é tomar posse daquilo que se é. Por isso, Deus não pode trabalhar com uma pessoa mascarada, que não se aceita.

Não existe cristão se ele não se aceitar do jeito que é. Você é o que é, e a sua conversão passará por aquilo que você é!
Jesus quando viu Maria Madalena fez com que ela voltasse a ver aquilo que ela era, não uma prostituta, mas uma filha de Deus projetada por Ele; não aquilo que a sociedade criou.

Nós caímos muito nos artifícios que nos são apresentados. Nossa vida se ilumina por novidades e gostamos muito do estético. E seguimos aquilo que é diferença, não somos fãs da disciplina. Corremos atrás de coisas e duas semanas depois vemos que realmente aquilo não era tão bom como parecia.

Por que os artistas não permanecem muito tempo casados? É por causa disso. Querem respostas rápidas, românticas, buscam o brilho eterno e acabam desanimando. Então, o outro começa a decidir por nós e ficamos perdidos. Muitas pessoas, ora dão um testemunho de que acreditam em Deus, ora, passado um tempo depois, já dizem acreditar em Buda, depois em Maomé, e mais tarde na energia [cósmica]... Não ficam presas a nada.

Cuidado para não seguir somente as vaidades. Somos vaidosos, mas não podemos ser levados pela vaidade. Não invente um personagem, seja aquilo que você é. Seja autêntico, assim você provoca autenticidade nas pessoas a seu redor. Procure ser aquilo que Deus o fez. Se você está correndo atrás de porcaria cuidado para não acabar deixando de ser aquilo que Deus fez de você.

Deus acontece plenamente no nosso coração quando nós nos permitimos ser aquilo que somos. A nossa divindade só acontece na participação.

Não seja aquilo que dizem que você é. Parece estranho, mas não podemos dar aquilo que não temos. Se você não descobrir que você é sagrado, você não vai perceber a sacralidade que o outro é!

Quem não se ama não sabe amar ninguém. É uma pessoa ausente de si mesma. Os amores estragados que passaram minaram aquilo que ela era. Há pessoas que vemos que não têm amor-próprio; mas nós não temos o direito de perder esse amor.
Tome posse do que você é para depois dar-se ao outro.

Padre Fábio de Melo